São Paulo corta a EJA enquanto milhões ainda não sabem ler

A Crise da EJA em São Paulo

A Educação de Jovens e Adultos (EJA) em São Paulo enfrenta uma grave crise que se reflete na redução drástica de matrículas e na diminuição das ofertas de cursos. Ao longo dos últimos anos, o número de alunos inscritos nessa modalidade de ensino caiu significativamente, apresentando uma queda superior a 50% em algumas áreas. O contexto social e econômico do Brasil também influencia essa realidade, onde muitos adultos e jovens ainda não têm acesso à educação básica completa, como se observa nas narrativas de vidas que foram transformadas por esta oportunidade.

A crise da EJA em São Paulo não é apenas uma questão numérica, mas revela uma problemática mais ampla: a falta de políticas públicas eficazes voltadas para a educação de jovens e adultos. O governo, sob diversas gestões, não tem promovido ações que valorizem esta modalidade da educação, preterindo frequentemente a EJA em favor de estratégias que visam a simplificação e o corte de custos. Embora a EJA tenha um papel fundamental na inclusão social, muitas vezes ela é vista como um ônus em vez de um investimento.

A redução do número de turmas e a suspensão de módulos essenciais, como o de alfabetização, agravam ainda mais a situação. Sem essas oportunidades, muitos adultos que desejam se educar enfrentam a impotência de não encontrar caminhos que os levem ao aprendizado. A contradição entre a demanda reprimida e a oferta reduzida possível é quase uma ironia da educação: enquanto muitos clamam por educação, as portas se fecham.

Educação de Jovens e Adultos

Impacto nas Matrículas e na Inclusão

O impacto da crise na EJA reflete-se diretamente nas estatísticas de matrícula. Dados mostram que, entre 2021 e 2025, mais de 50% das matrículas foram eliminadas nas escolas municipais de São Paulo. O que deveria ser uma ponte para a inclusão social se transformou em um labirinto sem saída para muitos jovens e adultos. O quadro torna-se ainda mais preocupante ao se considerar que cerca de 830 mil pessoas no estado declaram não saber ler ou escrever, representando um desafio significativo para a sociedade.

A falta de acompanhamento e de um planejamento adequado para a EJA pode ser entendida como uma perda de oportunidade para muitos. A matrícula na EJA deveria ser uma porta aberta para a inclusão social, para a cidadania, e para a construção de um futuro mais igualitário. Entretanto, quando as turmas são reduzidas e as ofertas de cursos se tornam escassas, o acesso à educação se transforma em um privilégio, e não um direito básico.

As estatísticas indicam que, em São Paulo, uma parcela significativa da população continua sem ter acesso a uma educação que lhes permita não apenas o desenvolvimento pessoal, mas também a capacidade de competir por melhores oportunidades de emprego. O fechamento de turmas, a exclusão de módulos e a centralização das ofertas em escolas específicas têm contribuído para o aumento do analfabetismo funcional, que empurra as pessoas para uma realidade de exclusão e marginalização.

Histórias de Sucesso na EJA

Apesar do cenário desolador, existem diversas histórias de sucesso que emergem da EJA, ilustrando seu potencial transformador. Jovelina Pereira da Silva, aos 67 anos, conseguiu superar barreiras e concluir o Ensino Fundamental após décadas de interrupção. Ela compartilha sua trajetória com entusiasmo, revelando como a educação foi uma ferramenta de libertação pessoal. A partir desse ponto, ela começou a sonhar em se tornar escritora, um desejo que parecia impossível antes de se tornar aluna.

Marinalva Rodrigues de Souza, outra aluna da EJA, também se destaca em sua história. Com 65 anos e uma vida marcada pela falta de acesso à educação, ela finalmente conseguiu alfabetizar-se e, assim como Jovelina, encontrou um novo horizonte em sua vida. As histórias de ambas são não só exemplos individuais de triunfo, mas refletem a resistência coletiva que a EJA representa.

Esses relatos são fundamentais para entender que a EJA é mais do que uma mera situação numérica de matrícula; ela é o pulsar da esperança para milhões de brasileiros que buscam, através da educação, mudar seu destino e contribuir para a sociedade de forma mais ativa. Cada história de sucesso é um desafio lançado ao sistema educacional, que ainda precisa encontrar seu caminho em um mar de incertezas.

Por Que a EJA é Importante para a Sociedade?

A importância da EJA para a sociedade vai além da mera inclusão educacional. Através da oferta de educação, a EJA proporciona um espaço onde o ser humano pode redescobrir suas potencialidades, adquirir competências e se preparar para o mercado de trabalho. A educação é um direito universal e essencial para a cidadania, e quando essa oportunidade é negada, gera um ciclo vicioso de exclusão e pobreza.

Além disso, a EJA contribui para a construção de uma sociedade mais igualitária. Quando indivíduos têm a oportunidade de se instruir, eles se tornam mais capacitados para realizar escolhas informadas, participar plenamente da vida cívica e contribuir para o bem da comunidade. O poder transformador da educação faz com que aqueles que antes não tinham acesso a direitos básicos possam reivindicá-los e se tornar agentes de mudança.

Investir na EJA também significa investir em um futuro mais promissor para a sociedade como um todo. A marginalização de milhões de cidadãos que não completaram a educação básica traz consequências diretas para a economia, para a política e para a cultura de uma nação. A educação de qualidade para adultos não apenas diminui a taxa de analfabetismo, mas também melhora os indicadores de saúde pública, segurança e coesão social.

Analfabetismo em Crescimento no Estado

O panorama do analfabetismo em São Paulo projeta uma realidade alarmante. Em 2023, dados da Pnad Contínua mostram que aproximadamente 9,1 milhões de pessoas, com 15 anos ou mais, ainda não se alfabetizaram, representando mais de 5% da população. Esse dado não pode ser ignorado em um futuro onde a educação deve ser um pilar central de desenvolvimento e dignidade humana.

No estado, examine-se as estatísticas de analfabetismo funcional, que também crescem. Estudos mostram que mais de 2,77 milhões de paulistas enfrentam problemas relacionados à leitura e à escrita, refletindo a incapacidade de compreender e utilizar a informação no dia a dia. Este quadro exige ações urgentes e efetivas para a EJA e para a educação de adultos de modo geral.



A relação do analfabetismo crescente com as políticas públicas é uma questão crítica. Enquanto em um mundo ideal a educação deveria ser um direito garantido, a realidade mostra que, principalmente os grupos marginalizados, são os mais afetados por essas lacunas no sistema educacional. Isso não apenas perpetua a desigualdade social, mas compromete o futuro do nosso país.

A Reação do Governo e Políticas Públicas

Nos últimos anos, as respostas governamentais ao problema da EJA têm sido escassas e muitas vezes ineficazes. Durante a administração de diversos prefeitos e governadores, a EJA passou a ser tratada como uma prioridade menor, levando não apenas ao fechamento de turmas, mas também à redução de investimentos na educação de jovens e adultos. É evidente a desconexão entre a demanda social por educação e a oferta institucional para essa área norteadora.

Com a queda nas matrículas e a descontinuação das ofertas de cursos, fundamental discutir a necessidade de políticas públicas centradas na valorização da EJA. É preciso estabelecer metas claras que visem não somente a redução do analfabetismo, mas também a promoção de uma educação de qualidade, que atenda às particularidades de jovens e adultos. Essa ação requer um planejamento estratégico conjunto entre diferentes esferas do governo, além da colaboração com organizações não governamentais e a sociedade civil.

É preciso implantar um sistema de monitoramento eficaz que mantenha o foco nas necessidades dos alunos e estabeleça um plano de recuperação e crescimento da EJA. O reconhecimento do direito à educação para todos os cidadãos deve estar na linha de frente das discussões políticas. Somente assim a EJA poderá deixar de ser uma mera estatística e se tornar uma realidade acessível para todos.

A Luta de Educadores e Alunos

Os educadores que trabalham com a EJA desempenham um papel vital neste cenário desafiador. Este grupo de profissionais não apenas ensina, mas também serve como advogados e defensores dos direitos dos alunos ao longo de suas trajetórias educativas. Educadores se encontram na linha de frente, enfrentando não apenas a resistência institucional, mas também a desvalorização e a falta de recursos.

A luta dos educadores é muitas vezes invisibilizada, embora sua importância seja crucial para a transformação da educação para adultos. São eles que diariamente criam condições para que os alunos, que muitas vezes passaram por experiências dolorosas em suas histórias de vida, possam reescrever seus futuros através da educação.

Alunos da EJA, como Jovelina e Marinalva, também se tornam vozes potentes de resistência. Eles provam que, apesar dos obstáculos que encontram, o desejo de aprender e crescer é maior. As suas histórias inspiram outras pessoas e evidenciam que a educação é um caminho possível para mudança e inclusão. Portanto, a luta dos educadores e alunos não é apenas uma batalha pela educação, mas pela dignidade e pela justiça social.

Propostas para Reverter a Situação

Para reverter a situação da EJA em São Paulo, é fundamental implementar políticas que reconheçam o valor da educação de jovens e adultos. Propostas para a revitalização da EJA devem incluir:

  • Aumento do Investimento: Destinar mais recursos financeiros para a EJA é crucial para garantir infraestrutura, materiais didáticos e capacitação de professores.
  • Formação Contínua para Educadores: Criar programas de formação que ajudem os educadores a se atualizar sobre metodologias de ensino específicas para a EJA e a trabalhar com a diversidade de alunos.
  • Cursos Acessíveis e Relevantes: Desenvolver uma grade curricular que atenda às necessidades do público-alvo, com a inclusão de matérias que promovam o desenvolvimento de habilidades práticas.
  • Parcerias com Ongs e o Terceiro Setor: Trabalhar em conjunto com instituições que atuam na inclusão social pode melhorar a oferta e a divulgação de cursos da EJA.
  • Campanhas de Conscientização: Promover campanhas que visem aumentar a compreensão sobre a importância da EJA e sua relevância na sociedade pode atrair um número maior de matriculados.

Desafios da Educação de Adultos

A EJA enfrenta diversos desafios que vão desde a falta de recursos e políticas públicas até as barreiras culturais e sociais. A desvalorização da educação para adultos, que é uma realidade presente em muitos contextos, resulta na marginalização de um número significativo de pessoas que buscam requalificação e, principalmente, dignidade através da aprendizagem.

Além disso, é importante considerar que muitos alunos da EJA têm múltiplas responsabilidades, como emprego e família, o que pode dificultar a permanência nos estudos. Adaptações no calendário escolar e flexibilização de horários são essenciais para atender a esses estudantes que já têm um compromisso com a vida laboral e social.

Outro desafio se refere à questão da aceitação social da EJA. Muitas pessoas ainda têm preconceitos em relação à educação para adultos, considerando-a uma forma “inferior” de aprendizado. Somente uma mudança na percepção pública sobre a educação de jovens e adultos pode criar um espaço mais inclusivo e acolhedor para esses alunos e proporcionar um ambiente propício para o aprendizado.

O Futuro da EJA: Um Chamado à Ação

O futuro da EJA no Brasil e, em especial, em São Paulo, depende diretamente da mobilização da sociedade. Educadores, alunos, governantes e cidadãos precisam se unir para reverter a atual crise e promover uma educação que realmente atenda às necessidades de todos os brasileiros. O chamado à ação é urgente e necessário.

Investir na EJA é investir em uma sociedade mais justa, equitativa e próspera. É responsibilidade de cada um de nós garantir que a educação seja verdadeiramente acessível para todos, independentemente da idade ou histórico. O fortalecimento da EJA requer não apenas ações governamentais, mas também um compromisso coletivo da sociedade em reconhecer a importância da educação na transformação de vidas e na construção de um Brasil mais inclusivo.

Assim, por meio de um investimento efetivo, inovações em práticas educativas e o rompimento de barreiras sociais, será possível trilhar o caminho para um futuro onde a Educação de Jovens e Adultos não apenas exista, mas seja uma ponte sólida para o desenvolvimento individual e social.



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