A realidade das comunidades invisíveis
Um estudo recente realizado pela Almerindas, uma startup focada em engenharia e tecnologia para saneamento, revelou um panorama preocupante das condições de abastecimento em diversas comunidades na zona norte de São Paulo e em Guarulhos. Essas regiões, onde as condições de vida são frequentemente desafiadoras, apresentam um cenário onde cerca de 60% dos domicílios não estão registrados nas bases operacionais das concessionárias de água. Isso significa que a água tratada, que deveria ser monitorada e gerida, não é contabilizada, impactando a gestão hídrica e a segurança no abastecimento.
Impacto da falta de registros
A ausência de registros precisos tem implicações significativas não apenas para a gestão da água, mas também para a saúde pública e o bem-estar das populações nas periferias. Com 1.705 lares invisíveis para os sistemas de água, a realidade é que uma grande quantidade de água tratada simplesmente some, resultando em desperdício e na falta de visibilidade sobre a real demanda. Isso também dificulta a alocação de recursos e a implementação de políticas que visem atender a essas comunidades invisíveis, perpetuando um ciclo de desamparo.
Volume de água desperdiçada
A situação se torna ainda mais alarmante ao considerar o volume de água consumida sem medição. A estimativa conservadora aponta que cada domicílio não registrado consome cerca de 10 metros cúbicos de água por mês. Dessa forma, aproximadamente 17 milhões de litros são desperdiçados mensalmente. Quando ajustamos para um consumo potencialmente maior, esse número pode chegar a 20,4 milhões de litros mensais. Se essa tendência se projeta para todas as 1.750 comunidades do município de São Paulo, o total pode atingir quase 3 bilhões de litros mensais não contabilizados.

Como a urbanização afeta o fornecimento
A dinâmica urbana nas periferias de São Paulo está marcada por práticas de verticalização informal, onde uma única edificação pode estar subdividida em várias residências. Muitas dessas moradias não são registradas em cadastros oficiais. Isso ocorre frequentemente porque as ruas onde estão localizadas não aparecem nos mapas e registros das concessionárias. Assim, a maneira como a urbanização se desenvolve agrava a invisibilidade desses lares, dificultando a elaboração de estratégias eficazes de abastecimento.
A importância do mapeamento territorial
Para abordar essa questão, a Almerindas tem utilizado uma abordagem progressiva que combina mapeamento territorial com uma plataforma digital chamada Connect GIS. Esse sistema permite não apenas a identificação de logradouros que podem não estar em registros oficiais, mas também a coleta de dados valiosos diretamente com os moradores. Através de entrevistas, a empresa é capaz de entender melhor a ocupação do espaço e registrar informações essenciais para o planejamento do abastecimento de água.
Desafios na gestão da água
A gestão da água nas comunidades periféricas enfrenta múltiplos desafios. O principal deles é a falta de informações precisas sobre quantos lares realmente existem e como estão conectados ao sistema de abastecimento. Sem esses dados, é difícil planejar e operar de forma eficaz, além de aumentar as perdas hídricas e comprometer a segurança hídrica das regiões mais afetadas.
A visão de especialistas sobre o problema
Deise Coelho, CEO e cofundadora da Almerindas, destaca que a gestão hídrica deve ser encarada como uma questão territorial. “Gestão hídrica é, antes de tudo, gestão do território. Sem entender como ele é ocupado, fica impossível fazer um planejamento adequado para a operação dos sistemas de abastecimento”, afirma. Essa visão é crucial para a criação de políticas públicas que atendam realmente às necessidades das comunidades invisíveis.
Soluções para o reconhecimento dos lares
Para mitigar essa situação, a especialista sugere três ações fundamentais: a realização de atualizações cadastrais contínuas em áreas urbanas vulneráveis, o uso de tecnologia geoespacial para análise em tempo real e a implementação de campanhas de campo estruturadas que possam captar os dados que as bases tradicionais não conseguem visualizar. Essas iniciativas não só melhorariam a gestão da água, mas também ajudariam a aumentar o acesso às políticas de saneamento básico.
Dados sobre saneamento nas periferias
As estatísticas revelam que a situação do saneamento nas periferias é alarmante. O Brasil, nas últimas três décadas, viu uma queda de 15,7% na área total de água. Dentro da região metropolitana de São Paulo, os reservatórios de água atingiram níveis críticos, com o Sistema Cantareira operando em sua capacidade mínima. Essa escassez é acentuada pelas perdas na distribuição, estima-se que 37,78% da água tratada se perde antes de chegar às residências, o que representa um desperdício bilionário.
O papel da tecnologia na gestão hídrica
A tecnologia tem um papel central na transformação da gestão hídrica, especialmente em áreas vulneráveis. Através do uso de plataformas digitais e geoespaciais, é possível criar um mapeamento mais realista e eficaz dos habitantes das comunidades invisíveis. Isso permite que as concessionárias e o governo desenvolvam estratégias de abastecimento que atendam às necessidades reais da população.


