Histórias de Moradores do Bairro Brasilândia

Esta página em parceria com o Museu da Pessoa é dedicada a compartilhar histórias e depoimentos dos Moradores do bairro da Brasilândia.

História do Morador: Elson Pedro de Orlando Júnior
Local: São Paulo
Ano: 2014





Vídeo: Esse bairro tem história


Elson Pedro de Orlando Jú́nior fala sobre como conheceu o bairro da Brasilândia e sobre a importância das crianças do bairro saberem a história de onde moram.





História da Moradora:
Debora Cristina Schommer

Local: São Paulo
Publicado em:14 agosto de 2014

História: A gente conseguiu tirar crianças da rua


Sinopse:

Debora é uma jovem que ama jogar basquete e que mora na Brasilândia, em São Paulo. Ao narrar sua história, Débora lembra da infância e da separação dos pais quando tinha quatro anos de idade. Ela recorda como era o bairro de Vila Brasilândia na época de sua infância. Fala sobre a sua paixão por esportes e da carreira que poderia ter tido no basquete, mas que teve que abandonar por problemas de saúde. Por fim, cita a importância do seu trabalho como voluntária no Espaço Criança Esperança no bairro e fala sobre o filho que vai nascer.

História

Meu nome é Debora Cristina Shommer, nasci em Vila Brasilândia, São Paulo, no dia 30 de outubro de 1991. Minha mãe é de São Paulo, o meu pai é da Alemanha. Minha mãe nasceu na Vila Brasilândia mesmo. Meus avós paternos não os conheço, os maternos faleceram já tem um tempo, mas também nasceram na Brasilândia.

Minha mãe foi rainha de Escola de Samba, o meu pai nessas vindas dos gringos nas Escolas de Samba, se conheceram. Ela era da Rosas de Ouro. Eu acho que era 1989, por aí. Os nomes deles são Cecília e Benno, são casados só no papel, mas separaram já tem um tempo. Meu pai na época era segurança lá na escola do Rosas. Ele mudou pra cá. Eles casaram e ele ficou de vez. Eles se separaram eu tinha quatro anos. Foi até muito engraçado que na época ele até tentou me sequestrar. Tanto que meu nome não era pra ser Debora Cristina Shomer, era pra ser Debora Moreira Shomer. Ele fez meus documentos escondido da minha mãe e ficou Debora Cristina Shomer. Foi uma história bem complicada. A minha mãe saiu pra trabalhar e na época ele judiava muito do meu irmão, minha mãe deu um tempo pra ele sair de casa, minha mãe saiu pra trabalhar e a minha avó estava me olhando, ele falou que ia me levar no bar e nessa me levou embora. Foi complicado. Eu era muito pequenininha.

Mas aí eu lembro que o meu padrinho que na época que foi atrás, que achou ele e me trouxe de volta, foi a maior complicação. Na realidade, minha mãe já morava lá, em Brasilândia. Ele que foi pra lá. Atualmente, agora ele mora em Guarulhos, ele sempre morou lá. Depois ele foi pra Brasilândia. Brasilândia era bem feia, muito barro, muito barro, as casas não eram como é hoje, agora lá está bem melhor. A casa não mudou muito. Antigamente ela não tinha muro assim, que eu vejo por foto. Ela não tinha o muro, só tijolinho. Não era nem pintada, também não tinha um reboco, essas coisas. Agora está bem melhor. Morava eu, minha mãe, meus primos, os avós, ainda mora bastante gente lá. É que são seis casas. A minha mãe exercia a autoridade. Mas era só ela sair que meu pai fazia a festa, judiava do meu irmão. Eu tenho uma irmã também, só que ela não morava em casa. Ele judiava muito, judiava muito mesmo, até hoje meu irmão tem bronca dele, é capaz se ver fazer alguma besteira.

Era um negócio bem complicado, o povo falava pra minha mãe, só que ela não acreditava. Ela precisou ver pra crer. Um dia ela fingiu que foi trabalhar e nesse mesmo dia ela voltou e viu essa cena. Antes minha mãe trabalhava de auxiliar de enfermagem, e agora ela é cuidadora. Eu entrei na escola a partir dos meus quatro anos. Quatro anos eu já tava na escola, assim que o meu pai foi embora, eu entrei na creche. Depois eu fui pro fundamental, ensino médio e depois o superior. Eu ia de ônibus, pegava dois ônibus, até eu estudar mais perto de casa. Lembro da professora de matemática, ela era terrível comigo porque eu não era boa. Meu caderno era cheio de bilhete, pra minha mãe ir lá conversar (risos), que eu não era boa, eu não gostava de fazer lição. Mas depois com o tempo eu fui melhorando. Educação Física sempre foi o meu forte, eu adoro esporte. É o que eu mais gostava. Desde pequena eu falava, que quando eu crescer ia ser professora de Educação Física, desde pequena, tanto que eu consegui entrar na faculdade, só que eu tive que parar porque eu não consegui pagar, ficou muito alto. Mas isso é o que eu vou concretizar e vou fazer. Eu vou ser professora de Educação Física.

Morar na Brasilândia no início foi meio complicado porque tinha muito assalto, muito tiro, essas coisas de polícia e ladrão. Então, antigamente a gente tinha um horário pra entrar, tipo nove horas tinha que estar dentro de casa, porque senão o povo passava atirando. Foi meio complicada a juventude, agora está bem melhor, mas até eu não conseguia fazer muita coisa na rua. Pra onde a gente ia, na época ainda era Fazendinha, agora é Criança Esperança, sempre ia pra lá, fechava lá a gente ia embora. Lá tinha professores. Dava aula pra gente, a gente ficava lá, basicamente era nossa segunda casa, a gente ficava lá o dia inteiro, saía da escola só passava em casa, comia e ia pra lá. É da Prefeitura, a gente ficava lá. Eles falam Fazendinha, mas o nome é Osvaldo Brandão. A gente ficava lá porque o Fazendinha, porque como era muito barro antigamente, tinha muita árvore parecia uma fazenda. Só que pequenininha, todo mundo falava Fazendinha, gente ficava ali por causa das quadras, o ginásio, era onde tinha mais um espaço pra gente brincar, mas onde tinha mais polícia, ninguém ia lá atrapalhar a gente. Eu adorava parque. Qualquer parque que tinha quadra eu tava indo, porque a minha vida sempre foi o basquete. Aonde tinha basquete eu tava. Qualquer lugar, depois de um tempo, a minha mãe decidiu me soltar. Porque ela viu que não tinha mais jeito de me segurar, onde tinha basquete eu tava indo, tanto que até com o Criança Esperança eu fui pro Rio de Janeiro jogar basquete, foi um dos dias mais legais também, marcou também. Fui lá no Cristo, conheci o Rio de Janeiro, muito bonito. Eu e minhas amigas, a gente tem quase nove anos de Fazendinha, até o Criança Esperança chegar. Tem nove anos.

Foi assim, eu fazia o esporte, na época a antiga coordenadora a Adriana, era do Instituto Sou da Paz, ela veio com essa proposta pra gente, pra gente fazer esse trabalho voluntário tudo, pra gente poder entrar nas comunidades de verdade. Porque como a gente já era da Brasilândia, seria mais fácil pra gente entrar do que eles que não são. Daí ela decidiu montar. Eu fui a primeira a me interessar, entrou uma outra amiga minha e o grupo foi crescendo. Não crescendo assim bastante, porque o pessoal acha que tudo tem que ganhar dinheiro. Eles não veem a verdadeira proporção disso. A Adriana trouxe essa proposta, a gente gostou e participou. Quando tem evento, a gente participa. O Instituto Sou da Paz que levou essa proposta pro Criança Esperança. A gente só participou. Da gente poder entrar nas comunidades, que eles não poderiam entrar, pelo fato da gente já morar lá. Por causa que até tem traficante lá, que a gente fez um evento, tinha um traficante lá que não queria que a gente fizesse o evento lá, porque tinha polícia e ia atrapalhar o fluxo dele, a gente que é da Brasilândia foi mais fácil chegar nele, conversar, tudo, foi só por causa disso.

A proposta é da gente entrar na comunidade com mais facilidade, pra gente poder levar os esportes, de tirar as crianças da rua. Sou voluntária no Instituto Sou da Paz. A gente fez muitas coisas, a gente entrou em três comunidades complicadas, ali na Brasilândia, que dividiram. A gente entrou no Iraque, que foi uma comunidade muito complicada a gente entrar, que por mais que a gente morasse ali, eles não conheciam a gente, eles não queriam por nada, por causa dos polícias que iam atrapalhar e também tinha a Al Queda, chama Al Queda lá. Então eles não queriam. Era é muita boca lá, boca de fumo, e tudo que vai atrapalhar eles, eles não querem. De jeito nenhum. A gente queria resgatar as crianças de lá pra poder ir pro Espaço Criança Esperança, e eles não queriam isso, eles queriam que as crianças trabalhassem pra eles, a gente permaneceu, permaneceu, a gente pegou conseguiu, e a gente fez um evento lá pra todas as crianças. Eu lembro que a gente conseguiu mais de duas mil crianças nesse dia, levou um ônibus cheio de livros e eu e mais quatro voluntárias fizemos esportes essas coisas.

A gente conseguiu bastante gente, e hoje muitas crianças que eram lá desse Iraque estão lá no espaço hoje, fazendo atividades, até hoje quando eu estava no ponto de ônibus, a criança falou assim: “Olha, não era você que tava lá? Obrigado, você me ajudou muito.” Isso foi uma satisfação enorme, ver a aquele sorriso agradecendo e aquele abraço sincero, acho que está a proposta de ser voluntária, eu não ganho dinheiro, mas a sinceridade de uma criança é tudo. Foi muito legal. Eu tinha aquela obsessão de dar aula, ali eles me forneciam isso. Eles deixavam eu fazer o que eu mais queria. Tinha vezes que, quando chegava assim na semana do Criança Esperança eles faziam várias oficinas. E onde tinha o basquete eles me colocavam pra dar aula. Eu ficava nessa fissura de dar aula, de dar aula, que eu sempre quis. E como ele me deu essa oportunidade, isso foi só o pé pra mim entrar, depois eu vi que não era só isso.

Quando eu vi que eu tava fazendo o que eu mais queria, que era estar perto das crianças, que é o que eu quero, eu peguei e decidi ficar de vez como voluntária. Mudou muita coisa. Antigamente eu era tipo, bem chata. Tipo mente fechada. Hoje não, eu já consigo conversar com as pessoas, já consigo até dar uma entrevista. Mudou bastante coisa, em casa eu era aquela rebelde. Não conversava com ninguém, minha mãe tentava conversar comigo, acho que é porque toda aquela situação com o meu pai eu me fechei para o mundo. Hoje já mudou bastante coisa, já conheci bastante gente, mudou bastante. Eu não era namoradeira não. Meu negócio era mais fazer esporte mesmo. Comecei a namorar com 18 anos. Namorei com o Gabriel, o Jonatas hoje ele é meu segundo namorado. A gente tava no ensaio na Escola de Samba, lá onde eu desfilei, e nesse dia eu não desfilei, eu não estava ensaiando, eu só tava ali com as amigas, eu vi ele, na realidade quem tomou a atitude fui eu. Eu pedi pra minha amiga ir lá e pedir o telefone dele, ela pediu o telefone dele, e eu fui e mandei mensagem. Desde então a gente está junto. Hoje eu estou grávida de três meses. Eu fui ao Rio para um campeonato do Criança Esperança. O jogo de basquete foi muito emocionante, o ruim que se jogasse uma vez e perdia você tinha que ficar assistindo os outros. Foi muito, muito legal, a gente jogou lá no Morro do Cantagalo. Eles mesmo montaram um time e dividiram por equipe. Porque era equipe amarela, vermelha e azul, era dois de São Paulo, dois do Rio, dois de Minas. Não era só tipo, só São Paulo contra Rio, Rio contra, eles dividiram por equipe. A gente acabou conhecendo as meninas que iriam jogar com a gente lá na hora e foi muito rápido. Foi só dois dias de jogos. Eu estava fazendo faculdade, eu fazia muitos estágios, eu não ficava parada, trabalhava muito, trabalhei na academia, trabalhei na ADPM, eu trabalhei numa escola lá na Cohab Brasilândia também.

E agora estou esperando meu filho, e agora grávida é difícil trabalhar. Só que eu vou trabalhar agora na eleição para algum deputado. Mas eu vou ver, eu vou trabalhar. Eu preciso. A Adriana saiu e o povo acha que sem a Adriana o grupo não é nada, mas eu e o Clóvis estamos conseguindo a puxar o grupo de volta pra gente voltar a fazer trabalho voluntário, mesmo sem a Adriana. Isso é o que a gente mais quer. É que ali na Brasilândia, o pessoal não acredita que a gente está sendo voluntário. Eles acham que a gente está ganhando dinheiro por trás disso, só que não, e mudou aqui até pouco tempo atrás o campo ali debaixo do Fazendinha, Fazendinha não, do Criança Esperança, ele estava totalmente parado, a gente conseguiu fazer um protesto junto com o nosso grupo de voluntário e a gente conseguiu fazer um abaixo assinado com mais de quatro mil pessoas assinando por causa do campo. Isso muda, o pessoal acha que não, mas isso muda bastante, e o grupo conseguiu hoje mais dez integrantes, assim do nada, por causa dessa ação que a gente fez pelo campo debaixo.

Eu acho que muda bastante e isso foi o primeiro passo lá que eles viram que a gente tava na linha de frente atrás disso, pro campo poder voltar. Porque o campo lá de cima vai sair, vai virar um hospital, e não teria onde ninguém jogar. Essa também ajudou bastante, muda a comunidade, se a comunidade querer também. Porque não adianta só a gente querer. A Brasilândia é um bairro meio complicado. Lá o pessoal é bem de querer ser mais que o outro, mora todo mundo vizinho, passa basicamente pela mesma situação, mas gosta de ser mais que os outros. E não consegue ver abaixo, não consegue ver o que está acontecendo. Eles não gostam, é difícil. Hoje se for analisar tem muito mais aluno no Criança Esperança por conta desse trabalho voluntário do que antes. A gente conseguiu tirar bastante crianças da rua. Bastante mesmo. Foi só quatro eventos pra já fazer bastante diferença. É que ali o pessoal da Brasilândia já acostumava ir lá antes do Criança Esperança mesmo.

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